A classe operária não foi ao paraíso

História

No filme “A classe operária vai ao paraíso”, do cineasta italiano Elio Petri, Lulu, o protagonista do filme, é um operário extremamente produtivo na fábrica, tem sua vida e sua subjetividade marcada e consumida pela realidade de seu trabalho. A história central do filme trata do processo de conscientização de classe de Lulu. No início da história, ao bater as metas de produtividade e manter uma postura extremamente individualista e competitiva, Lulu gerava ódio nos colegas de trabalho. Porém, essa postura começa a mudar gradativamente depois que o operário perde o dedo numa máquina; e também pelo diálogo crítico com seu amigo Militina que se encontra em um hospício. Militina enlouquece quando começa a questionar o processo de produção geral, já que dedicou a maior parte da vida a um trabalho cujo propósito, e o resultado ele desconhece.

Pressionado de todos os lados, pelos estudantes que berram palavras de ordem, pela sua mulher que se queixava seu desempenho sexual insatisfatório, e pelos gerentes de produção que exigem maior produtividade, Lulu se rebela e, em uma assembleia organizada pelo sindicato defende a greve imediata contra a exploração excessiva relacionada à exigência de alta produtividade. Porém, ao ficar desempregado, Lulú se vê diante de um impasse, fica evidente como a postura radical dos estudantes pouco tem a contribuir para esta situação do operário, pois para lutar, antes de mais nada, é necessário ter onde morar e comer. Já o sindicato apesar de algumas posturas mais moderadas (que irritavam muitos operários inclusive o protagonista), eram mais pragmático e, através da sua ação é que Lulú consegue recuperar o emprego.

A transformação da consciência de classe de Lulu

Na segunda cena do filme, em um diálogo com sua esposa, Lulu expõe uma semelhança entre o funcionamento do corpo humano e da fábrica, assim como nas fábricas os indivíduos também necessitam de matéria prima, que é a comida, e a partir disso inicia-se o processo de distribuição de tarefas pelo corpo humano: o cérebro, que é a “direção central, decide, faz projetos (…)”, e os outros membros, como língua, estômago, braços e pernas, cada qual cumpre uma função visando colocar em movimento o indivíduo. Neste discurso a divisão do trabalho, ou a distribuição do trabalho como diz Lulu, aparece como uma coisa natural ao operário. Além disso, ele está tão obcecado para bater as metas que, mantendo uma postura individualista e competitiva, aumenta sua produtividade no limite máximo de sua mente e corpo, tornando-se uma referência na linha de produção.

Acirrando a competição entre os trabalhadores, ele não compreende e se incomoda com as ofensas deferidas contra ele pelos outros trabalhadores. Neste momento ainda não tomara consciência do coletivo e nem sequer de sua própria situação de exploração e precarização. Entretanto isso muda quando Lulu, já sem um dos dedos, começa a diminuir a produtividade. Contrapondo duas cenas marcantes, a primeira na qual um áudio da fábrica antes de iniciar o trabalho fala sobre como deve-se tratar com “amor” e “carinho” a máquina, pois a saúde do próprio operário depende disso e, em outra na qual o gerente de produção aborda Lulu, que lamenta a perda de seu dedo, porém deixando bem claro que isso só importa na medida em que afeta a produtividade. Aqui podemos relembrar o que Marx e Engels retrataram sobre a alienação: as coisas parecem pessoas e as pessoas parecem coisas, a máquina é tratada com afeto e as pessoas são tratadas como maquinas. Isso não é novidade, entretanto, a precariedade do trabalho na fábrica acarreta problemas de saúde aos trabalhadores.

Essa mudança de consciência de Lulu também nos remete às distinções que Gramsci faz em relação a natureza ou “fases” da organização das classes subalternas. Ele parte da concepção de que os subalternos se encontram nesta situação de dominados pela própria natureza da relação de dominação que se estabelece e que tem como consequência e objetivo constante a situação de fragmentação. O senso comum é consequência desta fragmentação, apresentando ausência de coerência e unidade.

Diante dessa condição, em primeira instância devem ser diferenciados os fenômenos/movimentos de natureza espontânea, chamados de movimentos de conjuntura, “que se apresentam como ocasionais, imediatos, quase acidentais”, e os de direção consciente ou orgânicos, que são relativamente permanentes. A partir da análise de diversas conjunturas, incluindo sua experiência no movimento operário, ele identifica três momentos distintos nas relações de força: o primeiro e mais retrógrado, é o “ligado à estrutura objetiva, independente da vontade dos homens”. No filme, este primeiro momento aparece nas queixas e revoltas individuais dos operários.  O segundo é marcado pelas relações de forças políticas, sendo que pode apresentar diversas fases: a primeira é a fase mais elementar, econômico-corporativista, cuja unidade e solidariedade se limita entre o grupo social profissional; já na segunda se atinge consciência da solidariedade de interesse entre todos os membros do grupo social. E, finalmente no terceiro e desejado momento, “se adquire a consciência de que os próprios interesses corporativos, em seu desenvolvimento atual e futuro, superam o círculo corporativo, de grupo meramente econômico, e podem e devem tornar-se os interesses de outros grupos subordinados” (GRAMSCI).  Este momento marcará uma transformação decisiva na consciência e ação das classes subordinadas em seu processo de formação de uma “vontade coletiva”. Nas palavras do autor,

“Esta é a fase mais estritamente política, que assinala a passagem nítida da estrutura para a esfera das superestruturas complexas; é a fase em que as ideologias geradas anteriormente se transforma em ‘partido’, entram em confrontação e lutam até que uma delas, ou pelo menos uma única combinação delas, tenda a prevalecer, a se impor, a se irradiar por toda a área social, determinando também a unidade intelectual e moral, pondo todas as questões em torno das quais ferve a luta não no plano corporativo, mas num plano ‘universal’, criando assim a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma série de grupos subordinados.” (GRAMSCI).

No filme, podemos vislumbrar, no máximo, esse primeiro momento das relações de força encarnadas na figura do sindicato.

Além disso, também chama atenção o tema das doenças, que são tanto de ordem mental como físicas: o Transtorno Obsessivo Compulsivo e estresse de Lulu, os problemas de circulação e de perda de membros na fábrica, a “loucura” de seu amigo Militina. É a doença que permite que Lulu tenha um mal-estar ao perceber que é tratado como uma mercadoria descartável. Seu amigo Militina dá uma dimensão social da doença: “São os outros que decidem que você tá doido”, ou seja, quando você não serve mais aos interesses do capital ou quando atrapalha a ordem na qual apoia-se a exploração. “Isto não é loucura (…) Um homem tem direito de saber o que faz.”.

Os estudantes

Os estudantes aparecem na entrada e na saída do expediente da fábrica, gritando palavras de ordem, tentando incitar uma revolta dos trabalhadores, propondo uma união entre estudantes e trabalhadores, contra a suposta aliança entre os sindicatos e os patrões. Contudo, o que provocam é, no máximo, uma irritação nos trabalhadores e desconfiança dos sindicalistas.Neste sentido o texto de Lênin “O que fazer” faz diferenciação muito esclarecedora entre tática e estratégia: a primeira seria o meio e a segunda o objetivo (fim).

A cena em que os estudantes gritam palavras de ordem é um exemplo de uma tática “esquerdista”, pois o meio (os gritos revolucionários) acaba tornando-se o fim em si mesmo, muitas vezes não conscientemente, mas de qualquer maneira com essa consequência prática. Um momento claro dessa limitação da postura, discurso, ou da forma organizativa dos estudantes é quando Lulu encontra-se numa situação de desemprego e conversa com um estudante que lhe diz que ele finalmente alcançou a consciência de classe, ou seja, alcançou o objetivo dos estudantes. Entretanto, Lulu rebate e diz que ficou desempregado, mas precisa comer, e pede ajuda ao estudante, que nega. O estudante diz que não lhe interessa a fome deste operário em particular, que o caso de Lulu é individual e que lutar pelo caso dele é fazer um discurso individual ao contrário daquele que eles pretendem fazer, isto é, um discurso de classe. Essa atitude seria pra Lênin o esquerdismo.

O papel do sindicato

O surgimento e o desenvolvimento do sindicalismo se relacionam inicialmente com a precariedade das condições de trabalho nas fábricas. Os capitalistas sempre tentarão “baixar” os salários ao mínimo possível em que possa manter o operário vivo como reprodutor de sua própria condição de operário. Entretanto, em alguns momentos históricos, vimos como através da existência de um exército de reserva, chega-se a uma condição de extrema miséria e até a morte de alguns operários. Podemos observar uma cena do filme que mostra a contradição inerente ao discurso dos donos das fabricas e a política de produção na qual prevalece o único interesse do capitalista: extrair o máximo de lucro possível. Trata-se de uma cena na qual o gerente de produção verifica que a produtividade de um dos operários caiu pela metade; o operário explica que precisa trabalhar sentado devido à um problema de próstata, e que, por mais que se esforce, não consegue aumentar a produtividade; Lulu, ainda numa fase “conservadora”, diz que o operário “deveria estar feliz”.

Segundo Engels, o papel econômico do sindicato seria principalmente regular o salário. Este é um papel imediato e muito importante, como vimos, para manter um certo padrão mínimo de condições de trabalho e de vida. Entretanto, outro papel fundamental seria o papel político, quando o movimento classista visa transformações além das exigências econômicas imediatas. Para Lênin o papel do sindicato seria em primeiro lugar organizar a classe, e através da vivência nesta organização e pelas experiências adquiridas nos processos de greve, o sindicato cumpriria uma função educativa, como uma escola da consciência de classe.

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