A tradição popular e a eficácia da magia

Sempre gostei de histórias de terror. Quando era pequena era o tipo de história que mais me interessava sobretudo pelo prazer das sensações que me causavam: curiosidade, concentração, euforia e medo. Gostava de imaginar o que faria se vivesse uma história de terror, desejava experimentar alguma aventura com minha irmã e nossa amiga de infância Anna Clara. Essas inclinações alimentaram várias de nossas narrativas bem fantásticas baseadas aventuras reais que vivemos. Esse gosto seguiu presente em minhas leituras até a adolescência, quando estava aficionada pelos livros de Anne Rice, pela temática de vampiros e por todo mundo sobrenatural em geral. Assim, ler esta pequena novela de Gogol me fez recordar desses momentos tão preciosos.

 A fonte sobre essas histórias do folclore ucraniano de Gogol era sua própria mãe. Viy foi publicado em uma coletânea chamada Mírgorod em 1835, lee-lo dá a sensação de estar ao redor de uma fogueira no campo com um bom contador de histórias escutando um causo de terror. Sensação essa, diga-se de passagem, bem familiar a mim, não só por minha infancia, mas sobretudo por minha adolescência e madurez, quando pude conviver com um nato contador de histórias campo: meu padrasto. 

A história se passa em um ambiente rural ucraniano e, com um humor bem singular, por exemplo quando faz tipologias de alguns grupos deste povo. Começa descrevendo os estudantes de teologia em sua diversidade: os mais pobres tratados por bursa ou bursaque, e os mais bem situados em termos de moradia, chamados de seminaristas. Também havia uma distinção de nível baseado em que ano de estudo se encontravam: os gramáticos eram alunos de primeiro ano, em seguida os retóricos, depois os filósofos e, por fim, os teólogos.  Achei graça das tipologias descritas a partir do que cada um leva em seus bolsos e como se apresentam em vestes etc, também outras características como possuir bigodes, que só era permitido partir do segundo ano.

“Os gramáticos (…) andavam quase sempre de roupa manchada e puída, os bolsos cheios de toda espécie de porcaria, como ossinhos de quartela, apitos feitos de pena, sobras de bolo e ás vezes até filhotes de pardal que, de repente, quebravam com um pio o silêncio incomum da sala, fazendo seu dono ganhar boas reguadas em ambas as mãos e às vezes até açoites com vara de cerejeiras. Os retóricos tinham um ar mais grave: andavam frequentemente com as roupas bem inteiras, mas seus rostos estavam quase sempre decorados por algo que lembrava um tropo retórico: um olho subia até o meio da testa, ou no lugar dos lábios aparecia uma bolha ou outro sinal qualquer; esses conversavam entre si e juravam por Deus em tiple.  Os filósofos chegavam a tirar uma oitava abaixo deles; em seus bolsos não havia nada, exceto grossas peles de fumo. Não estocavam nada, e tudo o que encontravam iam logo comendo; exalavam cheiro de cachimbo e vodca, e as vezes de tão longe que, quando um artesão passava por perto, parava e ainda ficava muito tempo cheirando o ar como um galgo.” (p.162)

O momento mais esperado pelos estudantes eram as férias de junho, neste período a estrada real se enchia de gramáticos, filósofos, retóricos e teólogos. Alguns deles aproveitavam para ir a kondítsia, nome dado em Ucrânia para o lugar provisório em que se alojava o professor que lecionava particularmente em domicílios, em troca eles ganhavam botas novas entre outras coisas. Toda uma tropa desses estudantes iam pelas estradas levando comida para pernoitar no campo. Dentre eles estavam os três bursaques: o teólogo Khaliava, o filósofo Khomá Brut e o retórico Tibéri:

“O teólogo era um homem alto, espadaúdo, e tinha um costume estranhíssimo: tudo  que aparecia à sua volta, ele roubava infalivelmente. Em outros momentos era de um temperamento por demais sombrio e, quando se embriagava, escondia-se no meio do matagal, onde o seminário tinha muita dificuldade de encontrá-lo. O filósofo Khoma Brut era de temperamento alegre. Gostava muito de ficar deitado e fumar cachimbo. Se bebia contratava sem falta músicos e sapateava. Provava com frequência o castigo da chibata, mas com absoluta indiferença filosófica, dizendo que o que tem de acontecer acaba acontecendo. O retórico Tibéri Górobiets ainda não tinha o direito de usar bigodes, beber vodka e fumar cachimbo. Usava apenas uma espécie de crista ao longo da cabeça e por isso sua natureza ainda era pouco evoluída; mas a julgar pelos grandes galos na testa, com o que amiúde aparecia na sala de aula, dava para supor que seria um bom guerreiro.” (p.166)  

Seguiam pela estrada principal com a tropa até que se desviaram com o objetivo de se alojarem e se abastecerem na primeira casa que fosse possível pois de comida já não restava nada, además, já estava escurecendo. Logo avistaram uma granja e se dirigiram a ela. Quem os recebeu foi uma senhora idosa, que a princípio os negou o pouso, pois já tinha a casa cheia, por fim acabou cedendo de tanta insistência dos estudantes. Ela os separou, e o filósofo Khoma, que foi alojado em um curral, se preparava para dormir quando de repente se espantou com a chegada da senhora, que vinha em direção à ele de uma maneira muito estranha:

“O filósofo quis empurrá-la, mas para sua surpresa percebeu que não conseguia levantar os braços, que as pernas não se moviam, e viu aterrorizado que sua voz não soava: as palavras surdas morriam em seus lábios. Ouvia apenas o bater do seu coração; viu como a velha se aproximou, cruzou-lhe as mãos sobre o peito, baixou-lhe a cabeça, saltou em suas costas com a rapidez de um gato, deu-lhe uma vassourada num flanco, e ele, pulando como um cavalo de sela, saiu carregando-a nos ombros.  Tudo isso foi tão rápido que o filósofo mal pôde voltar a si e agarrar-se aos joelhos com as duas mãos, na intenção de segurar as pernas; mas elas, para a sua grande surpresa, se levantaram contra a vontade e dispararam em um galope mais rápido que o de um cavalo circassiano. Quando já haviam atravessado a granja, e diante deles se descortinava um vale plano com um bosque negro como carvão se estendendo ao lado, só então ele disse a si mesmo: ‘Então é isso, ela é uma bruxa.’” (p.171)

Assim seguiu Khomá noite afora, com a bruxa em seu cangote fazendo dele um cavalo delirante, provocando alucinações e controlando totalmente seu corpo.  Até que, ao evocar diversas orações, o pobre coitado conseguiu retomar o controle do corpo, agarrou um pau e golpeou  bruxa com toda força! Para sua surpresa, ao final não parecia mais o corpo de uma velha bruxa, e sim de uma bela jovem “de cílios longos como flechas e com uma linda trança desfeita.  Sem sentidos, ela jogou os braços nus e alvos para ambos os lados e gemeu, erguendo os olhos cheios de lágrimas.” (p.173), essa imagem provocou nele uma sensação de piedade, ansiedade e timidez, em desespero o filósofo fugiu o mais rápido que pôde.

Khomá já estava prestes a esquecer desta terrível noite quando chegou aos seus ouvidos a notícia de que a filha de um dos mais ricos chefes do esquadrão de cossacos voltou a casa de um passeio toda quebrada, a beira da morte e desejava que as orações dos três dias após morte fosse realizada por um seminarista de Kiev: Khomá Brut. Ao se dar conta que teria que cumprir esse pedido, o seminarista teve “um sombrio pressentimento lhe dizia que algo mau o esperava. Sem saber porquê, disse sem rodeios que não ia.” (p.175) Porém, o reitor negou a rejeição sob pena de um castigo físico. O filósofo tentou de tudo, sem sucesso, acabou indo a casa do chefe dos cossacos. Nesta viagem o acompanharam seis velhos cossacos fortes e corpulentos “Suas vestes longas de tecido fino com borlas mostravam que eles pertenciam a um amo bastante importante e rico. Pequenas cicatrizes indicavam que em algumas época haviam participado de guerra, e com alguma façanha.” (p.176) A caminho da casa pararam em uma taberna, e assim como em muitas outras partes da novela, Gogol descreve os costumes da cultura popular ucraniana da época:

“Apesar daquele calor de julho, todos desceram da carroça, dirigiram-se a uma saleta baixinha e suja, onde um jid  taberneiro correu alegre ao encontro dos seus velhos conhecidos. O jid trouxe às escondidas vários salames de carne de porco e colocou-os na mesa, afastando-se imediatamente dessa carne proibida pelo Talmude. Todos se sentaram à mesa. Uma caneca de barro apareceu na frente de cada hóspede. O filósofo Khomá devia participar dessa pândega geral. E como os ucranianos, quando bebem, começam sempre a trocar beijos ou a chorar, não tardou para que a beijação tomasse conta de toda a isbá.” (p.178)

Já na grande mansão do chefe dos cossacos, uma casa tradicional da época que “ (…) era de tipo baixo e pequeno, daquelas que antigamente se costumava levantar em Ucrânia. Era coberta de palha. A fachada, pequena, pontuda e alta, com uma janelinha parecida com um olho fitando o alto, era toda pintada de azul e amarelo, com crescentes vermelhos.” (p.180)

Mesmo admirado com a beleza do lugar, o filósofo nunca deixava de pensar em como fugir, ao mesmo tempo tinha em mente todas as advertencias de que isso era impossível. Conheceu o pai da jovem falecida, que ao que tudo indicava era um velho que sabia viver e se divertir, e que agora se encontrava totalmente desolado e abatido. Após uma breve conversa com o pai da moça, Khóma contou que desconhecia sua jovem filha e ainda mais os motivos pelos quai ela o elegeu. Apesar da desconfiança inicial do pai ante a situação, ele o agradeceu e ordenou que começasse o trabalho imediatamente. 

Em presença do caixão com a defunta, o filósofo não teve coragem de olhá-la diretamente, por um tempo dirigiu lhe as orações desviando o olhar da jovem. Até que finalmente, não suportando mais a curiosidade, moveu sua cabeça em direção a ela:

“O tremor lhe correu pelas veias: diante dele estava uma linda jovem, dessas que a terra jamais vira. Parecia que os traços de um rosto nunca tinham sido tão formados com uma beleza tão intensa e ao mesmo tempo tão harmoniosa. Ela estava deitada ali, parecendo viva. A fronte da bela, suave como a neve, como a prata, parecia pensar; as sobrancelhas – uma noite por entre um dia ensolarado, finas, simétricas, erguiam-se orgulhosas sobre os olhos cerrados, enquanto os cílios, caindo como flechas sobre as faces, ardiam no fogo dos desejos ocultos; os  lábios – uns rubis prontos para sorrir… Ms neles, nesses mesmos contornos ele notou algo terrivelmente penetrante. Sentia que sua alma começava a gemer dorida, como se de repente alguém cantasse uma canção sobre um povo oprimido em meio a um turbilhão de alegria numa roda agitada. Os lábios de rubi davam a impressão de que eles ferviam o sangue do próprio coração. De repente, algo de terrivelmente conhecido se estampou em seu rosto. ‘bruxa!’, exclamou com voz de possesso; desviou o olhar, empalideceu todo e se pôs a rezar as suas orações: era a mesma bruxa que ele havia matado.” (p.186)

Depois de levar o caixão até a igreja, onde seria velado os três dias, Khomá se reuniu com o restante da casa para descansar e comer. Este trecho também me chamou muita atenção, Gogol narra o ambiente popular, suas formas de viver e socializar que alimentam uma coesão social e cujas crenças e experiências individuais, inclusive experiências com o sobrenatural ganham um tom cotidiano e coletivo. Nesse momento que o autor narra em detalhes como se forma a história legítima, que nada mais é do que uma negociação entre os diversos relatos, chega-se a uma espécie de consenso. Mais um aspecto característico de sociedades campesinas tradicionais onde o folcocle cumpre uma função importante é a transmissão do conhecimento via oralidade, e o principal campo de produção dessa oralidade era a cozinha, onde se nutria o estômago e o imaginário social: 

“A cozinha da casa do pan tinha algumas semelhança com um clube, onde confluíam todos os frequentadores do pátio, inclusive os cães, que vinham abanando o rabo até a porta à procura de ossos e de restos. Se, por algum motivo, alguém era enviado a algum lugar, sempre ia antes a cozinha para descansar ao menos um minuto no banco e fumar cachimbo. (…) Porém, a reunião mais numerosa era a da hora do jantar, ocasião em que vinham o pastor dos cavalo, depois de metê-los no cural, o vaqueiro, que trazia as vacas para o estábulo, e todos aqueles que não se podiam ver de dia. Durante o jantar, a prosa tomava conta até das bocas mais caladas. Nessa ocasião, falava-se habitualmente de tudo: de quem mandara fazer novas bombachas, do que havia dentro da terra, de quem vira um lobo.” (p.187)

Nesta noite o tema principal era a morta:

“- Será verdade – perguntou um jovem pastor de ovelhas, que havia posto tanto botão e chapinha de cobre na bandoleira do cachimbo que parecia que parecia a venda de um mascate – , será verdade que a panzinha, que Deus me perdoe, tinha parte com o espírito mau?

 – Quem, a panzinha ? – Dosse Doroch, já conhecido do nosso filósofo. – Ela era uma tremenda bruxa! Juro que era uma bruxa! 

-Chega, Doroch, chega! – disse aquele outro que durante a viagem se mostrara tão disposto a consolar. – Nós não temos nada com isso; Deus que tome conta. Isso não é coisa que se diga.

Mas Doroch não estava com a mínima disposição de ficar calado. Acabara de ir à adega junto com o despenseiro ainda antes do jantar para ver alguma coisa, e lá se inclinara umas duas vezes sobre duas ou três barricas, saindo mais do que alegre, e agora falava sem parar. 

-O que é que você quer? Que eu cale a boca? – disse ele. – Ora, em mim mesmo ela andou escanchada. Juro que andou. 

(…)

-Eu queria perguntar por que é que todo esse pessoal que está aqui jantando acha que a panzinha era uma bruxa. Será que ela fez mal a alguém ou arruinou a vida de alguma pessoa? Perguntou o filósofo.

– Houve de tudo – respondeu um dos presentes, de cara chata, muito parecida com uma pá.

 – E quem não se lembra do perreiro Mikita ou daquele …?

 – Espere! Eu vou falar sobre o perreiro Mikita- disse Doroch

– E o que houve com o perreiro Mikita? perguntou o filósofo.

– Eu vou falar sobre Mikita – respondeu o vaqueiro – porque ele era meu compadre.

 – Eu vou falar sobre Mikita – disse Spírid.

             – Você, pan filósofo, não conheceu Mikita: eh, que homem raro foi aquele! Conhecia cada cachorro como o próprio pai. O atual perreiro Mikola, o terceiro aqui sentado atrás de mim, não chega nem aos pés dele. Embora ele também entenda do assunto, comparado com Mikita é uma porcaria, um lixo.

 – Deixem que Spírid fale, deixem! – gritou a multidão.   

  – Você está contando bem, bem mesmo! – disse Doroch, fazendo com a cabeça um sinal de aprovação.”

Contaram muitas histórias terríveis sobre as maldades dessa bruxa na comunidade, que inclui beber sangue de um bebê, enfeitiçar homens e até incinerar-los, que foi caso do que do perreiro Mikita. Depois de escutar essas histórias o filósofo vai a igreja passar toda a noite sozinho com a morta orando por sua alma. Lutando contra o medo que se apodera dele e sua razão que diz que não há o que temer já que conhece todas as orações e exorcismos para o proteger. A experiência foi temerosa, a morta levanta do caixão e tenta atacar entretanto e ele sobrevive a primeira e a segunda noite dentro de um círculo sagrado que traça e proferindo as orações.

Khomá estava exausto, até seus cabelos embranqueceram, tentou de todas as maneiras fugir da última noite, conversou com o pai da moça, empreendeu uma fuga pela montanha abaixo, porém tudo sem êxito. Sem saída, seguiu para igreja. Até aquele momento a bruxa não conseguia vê-lo dentro do círculo mágico,era como se ele se tornasse invisível para ela e para os outros monstros. Isso muda quando ela invoca o monstro Viy, e ele com a ajuda de outras criaturas demoníacas que levantam sua imensa pálpebra, entrega a localização do filósofo que é morto pelos monstros.

“‘Não olhe’, disse uma voz interior ao filósofo. Ele não se conteve e olhou. 

 -Aqui está ele! – gritou Viy, apontando para o filósofo com seu dedo de ferro. E todos os que ali estavam se atiraram sobre o filósofo. Ele desabou sem vida no chão e no mesmo instante sua alma o deixou, tomada de pavor.” (pp.205,206) 

À este final triste e trágico a comunidade dá uma explicação: o medo de Khomá. A morte do filósofo é lamentada, porém não resulta algo extraordinário. Ao que indicam os diálogos, resulta uma obviedade a forma pela qual deve se tratar desse assunto, e Khomá a sabia, de maneira mais ou menos consciente que alguns, mas sabia. Sugerimos que não só o medo o matou, mas também a curiosidade: ele escuta uma voz interior que o proíbe de olhar o monstro, uma intuição, mas atua contra ela, dirige o olhar ao proibido, e este é seu fim. Se foi o medo a principal causa foi porque este incitou a curiosidade.

Nos atentamos ao diálogo final entre o teólogo Khaliava e o filósofo Tibéri:

“-Você soube do que aconteceu com Khomá? – perguntou, chegando-se a ele, Tibéri Górobiets, que na ocasião já era filósofo e começava a usar bigode.

-Foi a vontade de Deus – disse o sineiro Khaliava. – Vamos à taberna beber pela alma dele!

(…)

-Grande sujeito era o Khomá! – disse o sineiro, quando o taberneiro coxo pôs diante deles a terceira caneca. – Era um homem excelente! E morreu por nada. 

-Mas eu sei por que ele morreu: morreu porque teve medo. Se não poderia ter feito nada contra ele. Basta apenas se benzer, depois cuspir no rabo dela, que nada acontece. Já conheço todas essas coisas. Porque aqui em Kíev, todas as mulheres que vendem no mercado são bruxas. 

Nisto, o sineiro meneou a cabeça em sinal de aprovação. (…)” (pp.206,207)

Afinal porque Khomá morreu? O que falhou? Lembrei de um texto que li durante a graduação de Ciências Sociais em uma disciplina obrigatória de antropologia, era parte do livro “Antropologia Estrutural” de Claude Lévi-Strauss: “O feiticeiro e sua magia”. Neste texto o antropólogo analisa vários textos etnográficos que relatam casos de magia e sua efetividade. Posto que não tinha sentido em duvidar da eficácia de certas práticas mágicas, o autor apresenta sua perspectiva sobre as condições que precedem a efetividade destas, que são:

“(…) primeiro, a crença do feiticeiro na eficácia de suas técnicas; depois, a do doente de que ele trata ou da vítima que ele persegue, no poder do próprio feiticeiro, e, por fim,  confiança e as exigências da opinião coletiva, que formam continuamente uma espécie de campo de gravitação no interior do qual se situam as relações entre o feiticeiro e aqueles que ele enfeitiça.” (p.182)

Em Viy, identificamos o primeiro elemento: a crença de Khomá no poder de suas orações, que era total, reforçada pela experiência pois já havia derrotado a bruxa no primeiro encontro, o terceiro elemento: a opinião coletiva, que eram os funcionários da fazenda e assim como Khomá, também estavam seguros de que ao conhecer as técnicas também não haveria problemas, e por fim o segundo elemento: a bruxa também sabia do poder de anulação das orações do filósofo, mas algo falhava. Havia uma parte de Khomá que se inclinava para “mau”. Isso aparece claramente quando, em domínio da bruxa, ao mesmo tempo sente medo e prazer. E, quando a anula sente alívio mas, logo depois, piedade ao ver seus olhos cheios de lágrimas e seu lindo corpo jovem se esparramar pelo chão. 

Esse algo que falha parece não ser apenas o medo do jovem filósofo, e sim de um excesso de sensações afetivas que extrapola a forma “normal” de lidar com a situação. Chamamos de “normal” a conduta que está em conformidade com as normas sociais, ou seja, de acordo com a tradição popular o cristianismo fornecia as técnicas para anular o mal, e apesar do tom ordinário e cômico que ganha o mau nesse novela, não deixa de ser uma força destrutiva, não deixa de constituir uma ameaça. O medo, o prazer, a curiosidade e a admiração pela beleza impactante da bruxa são excedentes que desequilibraram o filósofo e permite que as forças do mal o derrotem.  

Por fim, um aspecto muito importante da eficácia simbólica da magia é a valorização do conhecimento popular tradicional. A sabedoria popular é valorizada em detrimento de outros conhecimentos, isso fica claro quando um dos cossacos na cozinha se dirige a Khomá e questiona seu conhecimento sobre o sobrenatural e diz “Eh-eh! Pelo visto o que vocês bursaques aprendem lá não é grande coisa.” (p.191) Apesar deste comentário sabemos de Khomá não estava alejado desse conhecimento popular, era um estudante de origem humilde, conhecia as histórias e orações.

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