O triunfo da beleza (e da morte) sobre a vocação e a ascese puritana

“Como vimos, a ascese [puritana] se volta com força total principalmente contra uma coisa: o gozo descontraído da existência e do que ela tem a oferecer em alegria.” (WEBER,p.p.151,152)

O livro “Morte em Veneza” de Thomas Mann tem como protagonista Gustav Aschenbach, um homem em seus 40 anos que como uma “abelha” perseverava no trabalho de escritor se nutrindo não de inspiração e talento criativo, mas de uma disciplina rígida e  de um esforço incessante. Vemos como, apesar de tão consistente, lhe escapa entre os dedos esse mundo ascético, ordenado, seguro, disciplinado, formal e claro e, como, pouco a pouco, acaba se entregando a um mundo belo, desordenado e perigoso. 

Weber e Mann são conterrâneos e contemporâneos, compartilharam o mesmo contexto histórico na Alemanha e isso nos interesa na medida em que se nota uma correspondência entre a conduta de vida (Lebensführung) de tradição protestante puritana estudada no libro “A ética protestante e o espírito do capitlismo” de Weber e a conduta de Gustav Aschenberg: ambas são permeadas pela  ascese e pela ideia da vocação profissional puritanas. 

Gustav Aschenberg é um escritor de prestígio, e o sentido de sua vida era mediatizado pelo trabalho: se via como pensado para fama, ou mais ainda, destinado à ela, mesmo que seu físico resultasse um obstáculo era possìvel superar essa fraqueza através de sua força e conduta moral. 

“Assim, desde jovem, pressionado por todos os lados pelo dever de realização , jamais conhecera a ociosidade e a negligência despreocupada da juventude. Quando, aos trinta e cinco anos adoeceu em Viena, um observador perspicaz comentou a seu respeito para a sociedade:  ‘Vejam, é que Aschenbach sempre viveu assim’ – e o orador mostrava o punho esquerdo firmemente cerrado – ‘nunca assim’ – e deixava a mão aberta pender confortavelmente do braço da poltrona. A observação era pertinente, e o que esse seu comportamento tinha de moralmente corajoso era o fato de sua natureza, de compleição nada robusta, não ter sido propriamente criada, mas antes requisitada para um esforço constante.” (MANN, p.12) 

Aschenbach associava seu êxito a este tipo de conduta, por mas que gozasse de talento isto não era suficiente. Submetia a si mesmo a uma rotina violenta ao iniciar seu dia com “jatos de água fria no peito” (que loucura!).  Segundo Weber o processo de racionalismo econômico eliminou a relação dependente entre o aumento da produtividade e os limites “fisiológicos” da pessoa humana impostos pela natureza. (WEBER, p.67)

“Gustav Aschenbach era o poeta de todos aqueles que trabalhavam à beira da exaustão, dos que carregam um fardo superior a suas forças e, mesmo esgotados, se mantêm ainda de pé, de todos esses moralistas que têm por máxima o dever de produzir e que, de porte franzino e dispondo de meios precários, à custa de prodígios de vontade e hábil organização, conseguem obter, ao menos por algum tempo, efeitos de grandeza.” (MANN, p.15)

A fórmula de sua grandeza até então nada tinha de magia, era composta de puramente de racionalidade, esforço e uma firme conduta moral, nada tinha a ver com um fluxo natural de um florescimento de uma beleza espontânea, ao contrário: “Escravizara-se ao intelecto, cometera abusos com o conhecimento, triturara sementes ainda por dar frutos, profanara mistérios, desconfira do talento, traìra a arte (…)”. (MANN, p.16)

Weber descreve a contraposição entre a forma com a qual se significa o trabalho e os ganhos para uma conduta tradicionalista e para a conduta de origem protestante, e, simplificando, para a primeira o ganho era em função do ser humano como meio destinado a satisfazer suas necessidades materiais e, para a segunda, o ser humano em função do ganho como finalidade da vida.  (Weber, p.46) Gustav acreditava que a dignidade era alcançada através da superação do sofrimento e da solidão, era a grandeza em si mesma expressada na conquista de um lugar social (escritor de prestígio) estável e longínqua que dava sentido à sua vida.

“Seja como for! Evoluir é cumprir um destino; e como uma evolução, acompanhada pela simpatia e confiança de amplas massas de público, não haveria de seguir um curso distinto do daquela que se desenrola sem o brilho e os compromissos da fama? Só a eterna boêmia considera enfadonho e tende a encarar com menosprezo o fato de um grande talento superar o estágio frívolo de crisálida, habituar-se a defender com energia a dignidade do espírito e assumir as normas aristocráticas de uma solidão sem amparo, feita de sofrimentos e lutas duramente independentes, e que o leva a conquistar poder e honra entre os homens. Ademais, que jogo, que desafio, que satisfação é modelar o próprio talento! Com o tempo, algo de oficialmente pedagógico se infiltrava nas produções de Aschenbach; seu estilo, nos últimos anos, perdia os rasgos audaciosos, as nuances sutis e inventivas, passando para o exemplarmente correto, tradicionalmente lapidar, formal e até sentencioso, e, a medida que envelhecia bania de seu vocabulário, tal como Luís XIX – segundo divulga a história – , toda expressão vulgar. Foi a essa altura que o Departamento de Ensino passou a incluir páginas de sua autoria nas antologias escolares oficialmente adotadas. Pareceu – lhe em seu íntimo perfeitamente cabível – e portanto não recusou – que um príncipe alemão, que acabava de subir ao trono, resolvesse conferir ao autor de Frederico o título pessoal de nobreza, por ocasião de seu quinquagésimo aniversário.” (MANN, pp.17,18)

Este mundo estava prestes a ser perturbado: o artista é invadido por uma inquietação errante, um desejo de fuga… Será que era o sangue pagão herdado de sua mãe que fervia em seu ser? Sua mãe era filha de um mestre de capela tcheco, (aqui podemos pensar em correspondências autobiográficas já que o autor era filho de um alemão e uma brasileira, a ordem e a desordem..) essa “raça estrangeira” cujo “sangue mais agitado e sensual” lhe proporciona “impulsos ardentes e obscuros” (MANN, p.11). Para Gustav, essa mistura entre o sangue de uma linhagem de alemães que haviam levado uma vida “reta, decentemente parcimoniosa, a serviço do rei e do Estado” (p.11) era o que lhe fornecia a disciplina, base fundamental sobre a qual forjou sua grandeza, ao se misturar com a linhagem materna, o fez surgir um artista, e mais: um “artista especial”. 

Durante a viagem Gustav se depara uma imagem que o perturbou, provocando em seu íntimo uma profunda repugnância, tratava se um velho que viajava na mesma gôndola rumo a Veneza:

“Um dos viajantes, num terno de verão amarelo claro, de corte ultramoderno, gravata vermelha e um panamá de abas audaciosamente viradas para cima, sobrepujava a todo sem alacridade com sua voz esganiçada. Mas, assim que seus olhos se fixam nele, Aschenbach percebeu com uma espécie de horror que era um jovem postiço. Era um velho, não havia dúvida. Rugas rodeavam-lhe os olhos e a boca, o carmesim baco das faces era ruge, o cabelo castanho sob o panamá de fita colorida, uma peruca, o pescoço, o flácido, com tendões a mostra, o bigodinho revirado e a mosca no queixo, tingidos, a dentadura completa e amarela, que exibia rindo, não passava de uma prótese barata. Em suas mãos, com anel de sinete em cada indicador, eram as de um ancião. Aschenbach observava enojado aquele personagem e suas relações com os amigos. Será que não sabiam, não viam que era um velho, que não tinha direito a usar roupas como as deles, janotas e coloridas, que não tinha direito a se fazer passar por um deles, janotas e coloridas, que não tinha direito a se fazer passar por um deles ? (…) Parecia lhe que nem tudo se encaixava de modo habitual, como se começasse a lastrar se um clima de pesadelo, uma desconfiguracao do mundo no sentido insólito, que talvez pudesse ser detida, se ele deixasse a vista repousar um pouco na sombra antes de voltar a olhar em torno.”  (MANN, pp.23,24) Esta cena nos mostra a perspectiva de Gustav estava tão submetida aos deveres da “ordem social” que uma existencia que não está em harmonia com ela provoca nele uma rejeição no estomago.

Entretanto, em Veneza  “descortinava se um horizonte amplo, a abranger num clima de tolerância uma grande diversidade. ”  (p.33), experimentava um relaxamento e o as cores da liberdade, do novo, do exótico, mas mais que isso, o disciplinado Gustav estava prestes a descobrir uma beleza que o levaria a um caminho sem volta:  

“Aschenbach notou com espanto que o rapaz era de uma beleza perfeita. Seu rosto pálido, graciosamente reservado, emoldurado por cabelos anelados cor de mel, o nariz reto, a boca adorável, a expressão de seriedade afável, digna de um deus, lembravam uma escultura grega do período áureo, sendo que à mais pura perfeição da forma aliava-se um encanto pessoal tão exclusivo que o observador acreditava jamais ter encontrado, quer na natureza, quer nas artes plásticas, algo que se aproximasse de um acabamento tão feliz.” (MANN, p.p. 33,34)

Gustav foi vítima de uma paixão platônica, tornando se prisioneiro, como mostra mais tarde, de forma perpétua dessa nova paixão. Tazio lhe parecia a forma mais perfeita que jamais havia visto, era o ideal de beleza, mas, ao mesmo tempo, emanava uma fragilidade que beirava a enfermidade.  O olhar do artista sobre o mundo tornou se encantado: “O cenário da praia, o espetáculo da civilização despreocupada e sensualmente entregue ao prazer à beira do elemento natural, distraiu-o e alegrou-o como nunca. ” (p.39). 

Ele amava o mar por razões profundas: pela necessidade de repouso do artista exausto que, assediado pela multiformidade das aparências, anseia por abrigar-se no seio da simplicidade, da imensidão, e por um pendor proibido, diametralmente oposto à sua tarefa e por isso mesmo tentador, para o indiviso, o desmedido, o eterno, para o nada. 

Desta maneira, esse novo modo de ver e sentir a vida, que supõe o abandono da ascese puritana, dá lugar a uma vida de segredos e perversidades, tanto em sua relação com Tazio quanto com relação a Veneza. Ciente de que qualquer tentativa de consumação de sua paixão por Tazio era moralmente inaceitável, trata de reprimir todas inclinações de um contato direto, conformando-se em seguir-lo pelas ruas de Veneza, admirá-lo em trajes de praia, e em cruzar com ele pelos espaços do hotel, ou seja, em observá-lo. Paralelamente a caída da acese purita, a cidade se mostra também cada vez mais decadente : durante seus passeios pela cidade Gustav nota o ar pesado com olor  a podre, uma epidemia de cólera cresce em segredo. Uma vez revelado a ele a notícia, apesar da “voz da razão” dizer que deveria avisar ao menos a seu objeto amado: Tazio e sua família, opta por guardar segredo por não ser capaz de renunciar o prazer da contemplação do jovem, indiretamente entregando a morte não somente seu objeto de adoração Tazio, mas ele própio.

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